
Acabei de assistir Aconteceu em Woodstock (Taking Woodstock), novo filme de Ang Lee. Baseado no livro autobiográfico de Elliot Tiber. Trata dos momentos que antecederam o grande festival de “paz e música”, segundo a visão de Elliot. Ele não figura entre os grandes organizadores de Woodstock, mas foi o responsável por levar o festival para a cidade de Bethel, após o cancelamento na cidade chamada, justamente, Woodstock (parece que o povo local não aceitou).
Elliot, praticamente como espectador, vê o desenrolar da organização do festival – e do próprio evento em si – envolvido nas relações com seus pais, com a comunidade local e com o movimento da contra cultura.
Os cineastas estrangeiros têm um tino apurado como comentadores da sociedade americana, além de Ang Lee, veja Lars Von Trier, por exemplo. Ang Lee não foi nada compassivo com a chamada América profunda em Brokeback Mountain. Há elementos de Brokeback em Aconteceu em Woodstock, principalmente no retrato da reacionária população local, que mascara seu preconceito e mesquinhez na pretensa “defesa da comunidade”. Se em Brokeback a relação entre os dois rapazes era execrada pelo mundo a sua volta, em Aconteceu em Woodstock ela é bem recebida pelos jovens da geração de 60, mesmo que Elliot – sim, ele é gay – sinta receio em relação às reações de seu pai. Pois há o conflito de gerações entre Elliot e seus pais, retratado com sensibilidade em alguns momentos e com aspereza em outros. Creio que Ang Lee traz para o microcosmo o embate nada amistoso entre os jovens e a geração anterior. O diretor também faz breves comentários sobre a guerra do Vietnã por meio de um personagem que acabara de voltar do front, visivelmente afetado pela guerra – não tem como não pensar na guerra do Iraque.
Se por um lado Ang Lee parece odiar essa América profunda, por outro, ele retrata os jovens da contra-cultura com muito respeito e, quase, veneração. Faz passar rapidamente pela tela algumas das reivindicações da época, como o fim da guerra, o feminismo, a ecologia, a paz. Acho que o interessante no filme é ver como essa América progressista se confronta com a América ignorante, e não há dúvidas que o diretor prefere a primeira. Há uma cena emblemática, quando um grupo teatral vai se apresentar para a população da cidade, a peça começa, ficam nus e aos berros começam a chamar a platéia de fascistas e afins.
Concordo com Ang Lee, os EUA tem coisas horríveis, como a classe suburbana, armas para todo lado, Texas, música country, Britney Spears, partido republicano, 99% dos filmes de Hollywood, Titanic, Dow Jones, bancos, mas tem coisas boas como o jazz, Luther King, movimento gay, movimento feminista, movimento negro e o movimento hippie.
O filme acabou de entrar em cartaz, é uma boa pedida, mesmo que seja para sonhar com algo melhor por três dias…ops, digo, duas horas. Depois voltemos à realidade, ou não.



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